Campo de Concentração: Ex-preso questiona se trabalhos realizados não põem em causa a elevação a Património da Humanidade

Assomada, 16 Jul (Inforpress) – O ex-preso político Fernando dos Reis Tavares disse hoje à Inforpress que os trabalhos que têm sido realizados no ex-Campo de Concentração do Tarrafal (Santiago) podem pôr em causa a classificação como Património da Humanidade.

“Os trabalhos que têm sido feitos no Campo de Concentração fazem com que perca a sua originalidade, acho que isso pode pôr em causa a candidatura a Património da Humanidade”, alertou o também Combatente da Liberdade da Pátria.

A propósito da intenção do Ministério da Cultura em avançar com uma candidatura a nível da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Fernando Tavares que esteve preso no ex-Campo de Concentração por três anos (1968-1971) congratulou-se com a iniciativa, argumentando que faz jus, tendo em conta que além de Cabo Verde lá também estiveram presas pessoas de Portugal, Guiné-Bissau e Angola.

Numa recente entrevista à Inforpress, o coordenador da Direcção de Museologia e Museus (DMM), Adilson Dias, afirmou que passos já estão sendo dados para esta candidatura.

“Os trabalhos já estão sendo feitos, desde a parte técnica, pinturas (…), e apoios necessários estão sendo reunidos, ou seja, estamos a dar passos certos com toda a simplicidade e tecnicidade dentro daquilo que são as exigências da valorização de espaços para uma posterior candidatura”, avançou.

Ajuntou ainda que no âmbito do projecto de valorização do Campo de Concentração, para além das obras de intervenção de melhorias de espaço estão a melhorar também os equipamentos e as estruturas, modernizar o espaço com novos suportes e exposições, e ainda melhorar os conteúdos e adaptá-los à realidade de museus.

Adilson Dias, que coordenou os trabalhos no também Museu de Resistência, considerou o referido projecto como um dos “passos” que estão sendo dados para essa candidatura, tendo em conta que no processo tem que se dar “sinais claros” que estão sendo feitas mudanças e intervenções no sentido de se perpetuar aquela que é a memória histórica do Campo de Concentração em si.

Em Março último, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, anunciou que após a entrega da candidatura da morna a Património Mundial (já efectivada) iam dar início ao processo de candidatura do Museu da Resistência – ex-Campo de Concentração do Tarrafal – a Património Mundial da Humanidade, que já está inscrito na lista indicativa dos patrimónios da UNESCO.

Na ocasião, o governante informou que com a inscrição na lista indicativa os técnicos seniores da UNESCO indicaram um conjunto de irregularidades e aspectos que devem ser melhorados no campo, tendo adiantado que uma equipa técnica já está a fazer obras em parceria com a Câmara Municipal do Tarrafal.

Para o ministro, este projecto carece do envolvimento de toda a Comunidade dos Países de Língua Portugal (CPLP), dado que é um campo que teve duas fases na sua história e que envolveu os outros países da comunidade.

Com o término da obra, vão apresentar um dossiê preliminar e pedir apoio formal e uma Declaração formal de Portugal, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, países que mais sofreram com a existência do Campo de Concentração do Tarrafal criado em 1936, por Salazar, para acolher presos políticos e delitos comuns.

A esse propósito, o presidente do Instituto do Património Cultural (IPC), Hamilton Jair Fernandes, participou em Maio, na primeira reunião da Comissão do Património Cultural da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no Brasil, para “estabelecer contactos para a futura candidatura transnacional do ex-Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial”.

Na semana passada, o ministro Abraão Vicente, manifestou o desejo de Cabo Verde em ver transformada a memória do ex-Campo de Concentração do Tarrafal num factor de promoção de diálogos pela paz.

O governante lançou esta aposta em declarações à imprensa onde informou que o processo de candidatura do ex-Campo de Concentração a Património da Humanidade deverá ser abordado durante a Cimeira da CPLP que terá lugar nos dias 17 e 18 de Julho, na ilha turística do Sal sob o lema “Cultura, pessoas e oceanos”, e que marca o arranque da presidência cabo-verdiana da organização.

Segundo Abraão Vicente, à volta deste processo o Governo está a fazer o trabalho de montagem conceptual e de uma equipa científica através do Instituto do Património Cultural (IPC), tendo explicado ainda que neste momento está-se a fazer a apresentação internacional do processo de modo que a candidatura seja feita em conjunto com outros países.

A ideia é criar um projecto museológico que ensina aos cabo-verdianos, aos portugueses, angolanos, guineenses e ao mundo em geral, o quê é que Cabo Verde e a nação crioula aprendeu com a existência de um campo de concentração, e ligar o Campo de Concentração do Tarrafal a todo o sistema prisional construído durante a época salazarista, mas numa perspetiva cabo-verdiana de modo a promover diálogos pela paz.

FM/ZS

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