São Vicente: “A ideia de que São Vicente é uma ilha tolerante em relação à homo-afectividade é um tabu” – antropóloga

Mindelo, 05 Set (Inforpress) – A antropóloga Celeste Fortes considerou hoje, no Mindelo, que a ideia de que São Vicente é uma ilha tolerante em relação à homo-afectividade é um tabu de um conjunto de outros direccionados  a esse grupo “subalternizado”.

Celeste Fortes falava na qualidade de apresentadora do livro “Homossexuais, gays e travestis no Mindelo: entre identidades e resistências”, que é o resultado de uma pesquisa da autora Lurena Silva, no âmbito de um mestrado em Ciências Sociais, da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

“Costumo dizer que tenho muito medo de utilizar o termo tolerância porque nós toleramos, mas a tolerância em São Vicente e em Cabo Verde é eles existem, podem viver a sua sexualidade, a sua orientação sexual, mas não interagimos com eles”, lançou a apresentadora, para quem tolerância é interacção.

Segundo Celeste Fortes, o livro de Lurena Silva cumprirá o seu papel se conseguir provocar um debate público sobre os direitos homo-afectivos em Cabo Verde, como o direito a ter um nome social, o direito à adopção e ao casamento.

“O nosso nível de tolerância vai ser testado quando este grupo e a sociedade se organizarem para uma discussão real dos seus direitos”, precisou a mesma fonte, que recomenda a leitura da obra por tratar de um grupo que “não tem voz”, apesar, ajuntou, de “algum espaço de expressão” que existe em São Vicente.

“É um livro interessante e de leitura prazeirosa que nos leva ao encontro dessa marginalização social”, sintetizou Celeste Fortes.

A autora, por seu lado, considerou que após escrever a dissertação de mestrado achou “pertinente” publicar o trabalho em livro por entender que a problemática da homossexualidade deve ser encarada tanto pelas famílias dos homossexuais como pela sociedade “de forma natural”, por se tratar de “algo natural e não de uma opção”.

Para autora Lurena Silva, a obra trará “alguma contribuição social” nesse sentido porque vai esclarecer alguns aspectos para que as pessoas possam passar a respeitar os homossexuais,” mesmo que não aceitem” a homossexualidade, mas “pelo menos respeitar”, porque “são seres humanos iguais a todos” e “merecem respeito” e “viver com dignidade”.

No livro, Lurena Silva faz uma abordagem na família, “onde começa o preconceito”, na escola, onde os homossexuais e travesti “sofrem muita pressão” e muitos “abandonam o sistema educativo” sem adquirir as ferramentas básicas para a vida, e no trabalho, “um ambiente bastante hostil” para um homossexual assumido ou um travesti, pois, os que são “mais discretos”, ainda conseguem alguma coisa.

A autora tem o desejo de voltar ao tema, mas agora com a abordagem às mulheres lésbicas, “uma curiosidade que ficou” da obra agora dada à estampa com a chancela da Livraria Pedro Cardoso.

AA/ZS

Inforpress/Fim