Santo Antão: Planalto Leste tenta acordar do incêndio que devastou a floresta em finais de Julho

*** Por Jaime Medina, da Agência Inforpress ***

Porto Novo, 17 Ago (Inforpress) – Quase três semanas após o incêndio de grandes proporções que atingiu a floresta do Planalto Leste de Santo Antão, essa localidade tenta acordar da catástrofe, que transformou em cinzas 13 por cento (%) dessa reserva florestal.

Planalto Leste, alvo do maior incêndio florestal ocorrido em Cabo Verde, tenta reerguer-se, mas o semblante de tristeza é ainda visível nas pessoas, que dizem, entretanto, “esperançadas” na recuperação deste perímetro florestal, apelidado de “pulmão” e “coração” da ilha de Santo Antão.

Pulmão, porque purifica o ar com as suas árvores e coração devido à infiltração das águas das chuvas e precipitações ocultas nessa parcela da ilha de Santo Antão, situada acima dos mil metros de altitude, na confluência dos três municípios.

Nas últimas duas décadas e meia, Planalto Leste foi fustigado por vários incêndios, mas o de finais de Julho, pela sua dimensão, deixou “marcas profundas” nessa reserva, que terá começado a ser criada nos anos 50 pelos portugueses, no âmbito do trabalhos de conservação de solos e água, como uma forma de resiliência.

Alguns moradores do Planalto Leste, ainda quando fala do incêndio, ficam com olhos rasados de água, e não têm dúvidas de que, efectivamente, as chamas, que destruíram também terrenos agrícolas, deixou “marcas profundas” na floresta que levará anos para recuperar a sua exuberância.

A Inforpress falou com alguns dos 40 guardas florestais que asseguram a vigilância do perímetro, segundo os quais é “triste ver a floresta nesse estado”.

“O tom amarelado nas áreas atingidas pelo incêndio causa entristecimento, mas acreditamos que a floresta recuperará a sua vitalidade”, adiantam.

Os moradores acreditam, também, que Planalto Leste vai-se erguer para que continue a assumir-se com “o verdadeiro pulmão” da ilha de Santo Antão.

“Os pinheiros deste planalto, vindos de Portugal e Canadá, são diferentes. Daqui a pouco, já vão estar a renascer das cinzas. Vão ver que a floresta voltará a ser viçosa como dantes”, disse o agricultor João da Luz.

Arlindo Lopes alerta para a necessidade de sanear, “de uma vez por todas”, a situação de conflito que existe entre o Ministério da Agricultura e Ambiente (MAA) e os donos dos terrenos que, a partir de 1990, com a declaração do Planalto Leste como reserva florestal, passaram sob regime do Estado.

Segundo os moradores, existente uma espécie de “guerra fria” entre os proprietários de terras, guardas e técnicos do MAA que precisa ser ultrapassada, a bem da floresta.

Os supostos donos dos terrenos acusam o Governo de lhes ter retirado “à força” os terrenos para a reflorestação “sem direito à nada, sequer para recolher pasto para os animais ou retirar alguma lenha”.

“Ainda assim, temos que pagar, todos os anos, junto das finanças a chamada “decima das terras” (IUP)”, avançou João da Luz, dono de uma parte dos terrenos que estão sob regime florestal.

O MAA anunciou um plano de recuperação da floresta, com 1.600 hectares de extensão, a ser executado até 2023, plano esse que consiste, essencialmente, na limpeza, replantação e conservação de solos e água, mas tampem na montagem de um sistema de vigilância.

Segundo o ministro Gilberto Silva, o seu ministério vai precisar de mais de 30 mil contos para recuperar a floresta do Planalto Leste, que ficou “seriamente” afectada pelo incêndio.

O Governo, além da recuperação da floresta em si, anunciou outros investimentos para o Planalto Leste de Santo Antão, que abarca o reforço da protecção civil, a reposição das canalizações de água destruídas e restauração das áreas agrícolas e indemnizações dos agricultores.

O total das intervenções nessa localidade, incluindo a recuperação da floresta, deve rondar os 60 mil contos ao longos dos próximos cinco anos, estando o executivo a mobilizar, de imediato, 50% desse montante para repor a normalidade nessa zona.

Santo Antão está a preparar, nesta altura, a sua candidatura a património mundial da agricultura, que inclui parte da floresta do Planalto Leste.

O delegado do MAA na Ribeira Grande, Orlando Jesus Delgado, confirma que parte da floresta que ardeu fará parte da candidatura, defendendo, por isso, a necessidade de uma intervenção imediata, no Planalto Leste.

Segundo este responsável, é “fundamental repor, minimamente, os equilíbrios necessários destruídos pelas chamas, mas também criar as condições para evitar ou minimizar futuras ocorrências” nessa zona.

Saliente-se que parte importante do parque natural de Cova/Paul/Ribeira da Torre, com uma área de 2092 hectares, fica no Planalto Leste.

Este parque, alvo de um incêndio em 2017, que atingiu apenas a zona de Cova, dispõe de 36 espécies de plantas endémicas, 16 das quais estão na “lista vermelha”, sendo, por isso, considerado o maior centro de biodiversidade de plantas endémicas em Cabo Verde.

Em 2014, o Governo de Cabo Verde procurou junto da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) discutir a questão da candidatura do perímetro florestal do Planalto Leste a património natural da humanidade.

Nessa altura, o então executivo justificava a iniciativa, que não se avançou, com importância da reserva florestal do Planalto Leste “no contexto da biodiversidade nacional e mundial”.

Já em 2015, os municípios de Santo Antão, durante um fórum realizado no Porto Novo, sugeriram ao Governo a preparação de candidatura de toda a ilha de Santo Antão como património natural da humanidade.

JM/CP

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