Santo Antão: Milhões gastos na luta contra a pobreza não foram suficientes para inverter o quadro socio-económico da ilha – governante

*** Por Jaime Medina, Inforpress ***

Porto Novo, 21 Mar (Inforpress) – Os milhões gastos, nos últimos anos, na luta contra a pobreza em Santo Antão não foram suficientes para inverter o quadro socio-económico desta ilha, que deve continuar a encarar os desafios para estancar a perda acentuada da população.

A conclusão é do secretário de Estado da Educação, Amadeu Cruz, que esteve, nos últimos dois dias, de visita a Santo Antão, onde participou no primeiro fórum sobre o desenvolvimento social do Porto Novo, realizado pela edilidade local, no âmbito da elaboração do plano estratégico de desenvolvimento sustentável deste município.

Para este governante, o quadro actual em que se encontra Santo Antão, caracterizado pela “exacerbada dependência de ajudas e pela saída de jovens para outras ilhas” do arquipélago, significa que, “não obstante os milhões gastos nos programas de luta contra a pobreza, a ilha não foi capaz de gerar oportunidades de desenvolvimento económico sustentável, propiciador de emprego”.

“A ilha deve continuar a encarar os seus desafios no sentido de inverter as tendências actuais de despovoamento e perda acentuada da sua população”, notou Amadeu Cruz, para quem a actual situação por que passa Santo Antão se deve à “alta incidência da pobreza, ao desemprego jovem relativamente alto e à fraca produtividade”.

Além disso, os municípios devem “combater a mentalidade assistencialista e anti-investimentos alimentada aos longo dos últimos anos”, defende o secretario de Estado da Educação, que entre 2004 e 2012 exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal do Porto Novo.

Para Amadeu Cruz, Santo Antão enfrenta vários constrangimentos, alguns dos quais resultantes das vulnerabilidades naturais relacionadas com a seca e cheias esporádicas, além de ausência de recursos naturais, mas há outros que decorrem das “opções assentes na excessiva dependência das politicas assistencialistas”.

“São lições que devemos retirar do nosso percurso, com o objectivo de corrigir os nossos erros e alinhar o rumo que queremos tomar”, sugere o governante, defendendo na necessidade se promover o investimento privado na ilha de Santo Antão.

Dados recolhidos pela Inforpress indicam que Santo Antão, com uma taxa de pobreza de 54%, recebeu, entre 2004 e 2017, no âmbito dos diferentes programas de luta contra a pobreza, recursos que ultrapassam os 450 mil contos.

Entre 2004 e 2012, no quadro do Programa de Luta contra a Pobreza no Meio Rural (PLPR), Santo Antão foi contemplado com projectos na ordem de 323 mil contos em acções de combate à pobreza, abrangendo os domínios da habitação social, água e saneamento, que beneficiaram, directamente, 15 mil pessoas.

Entre 2014, data em que o PLPR foi substituído pelo programa Poser (Programa de Promoção das Oportunidades Rurais), e 2017, o montante dos investimentos na luta contra a pobreza em Santo Antão rondaram os 131 mil contos.

O Poser, que tem o suporte financeiro do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e do Fundo Fiduciário Espanhol para a Segurança Alimentar, privilegia acções de luta contra a pobreza nas áreas de agricultura, pecuária e pesca.

Os autarcas santantonenses têm-se mostrado “preocupados” com a saída da população desta ilha que, entre 2012 e 2016, perdeu 2.630 habitantes, passando a população de 42.552 para 39.992 habitantes.

Santo Antão já tinha perdido, entre 2000 e 2010, quase quatro mil pessoas, mas dados mais recentes, publicados pelo Instituto Nacional das Estaticistas (INE), mostram que os santantonenses intensificaram a sua saída da ilha rumo, sobretudo, à Boa Vista e Sal ou mesmo ao estrangeiro, “à procura de uma vida melhor”.
Para as autoridades locais, essa situação resulta de “más politicas” de que esta ilha tem sido alvo, aos longo dos anos, que têm como consequência o aumento do desemprego e da pobreza.

O edil do Paul, António Aleixo, defende que Santo Antão precisa dinamizar a sua economia para gerar empregos e rendimentos, mas também, clama por projectos, com destaque para o Ensino Superior e pelo aeroporto.

Os responsáveis municipais acreditam que o aeroporto, cujos estudos decorrem, actualmente, será “crucial” para tirar a ilha da “estagnação económica” em se que encontra.

O Governo garante Ensino Superior a partir do ano lectivo 2019/2020, com a criação do Instituto Superior de Ciências e Tecnologias Agrárias, admitindo que o aeroporto estará a ser implementado a partir de 2020.

Em Janeiro, durante uma visita a Santo Antão, o primeiro-ministro defendera a necessidade de o Governo e os municípios trabalharem para a fixação “ou até retorno e aumento” da população nesta ilha.

“Vê-se, claramente, que a nível das escolas há cada vez menos matriculas. Isso significa que as famílias estão a sair. Este é um problema de Santo Antão e temos de trabalhar para que haja a fixação da população e até o retorno e aumento”, avançou Ulisses Correia e Silva.

O desencravamento e a integração das localidades constituem uma outra via para se fixar as populações, defendeu, na altura, o chefe do Governo, confrontado com o “drama” da perda da população por parte da ilha de Santo Antão.

JM /JMV

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