Santo Antão: Enfermeira Tchicau, pioneira da saúde materno-infantil e do planeamento familiar no Porto Novo

***Por: Homero Fonseca, da Agência Inforpress***

Ribeira Grande, 11 Jul (Inforpress) – Chama-se Maria Francisca Santos Oliveira, por todos conhecida por enfermeira Tchicau, a pioneira dos serviços de PMI-PF, no Porto Novo, que recorda tempos difíceis em que teve de enfrentar mitos e tabus na mira de conseguir mudar mentalidades.

O ponto de partida para uma saúde de qualidade para mulheres e crianças, no período pós-independência, era “grave” e foi necessária a abnegação e entrega de vários profissionais para que essa situação fosse hoje apenas uma “lembrança de tempos difíceis”.

“Enfrentávamos muitos casos de tétano do umbigo, mas as pessoas acreditavam que as bruxas é que ‘comiam’ essas crianças”, exemplificou a enfermeira Tchicau, responsável pela implementação do serviço de Protecção Materno-Infantil e Planeamento Familiar (PMI-PF), no Porto Novo, nos idos anos da década de 1980.

Tchicau recorda que “havia muita mortalidade infantil e muita mortalidade materna” resultado, em muitos casos, da mentalidade supersticiosa das pessoas de então.

Fazendo valer a máxima de que “se não podes vencer o teu inimigo, junta-te a ele”, a enfermeira Tchicau promoveu um encontro com um “curandeiro” muito solicitado pelas pessoas que procuravam cura para o “quebranto” (mau-olhado) e estabeleceu com ele uma parceria que veio a resultar “muito positiva” para fazer passar a mensagem da PMI-PF.

“Combinei com o curandeiro e indiquei-lhe os métodos de reidratação e de combate à desnutrição e ele passou a transmitir essas indicações às pessoas que o procuravam” disse a enfermeira Tchicau citando os casos de má-nutrição, aliada aos mitos ligados ao aleitamento materno, como um dos problemas que o curandeiro ajudou a resolver.

“Nessa altura não tínhamos oralite e nós mesmos fazíamos a ‘nossa oralite’ com água, sal e açúcar”, revelou Tchicau, adiantando que o curandeiro também passou a recomendar essa “oralite”, a água de arroz e o aleitamento materno, bem como conselhos para não pararem de amamentar as crianças, abruptamente, caso a mãe ficasse grávida enquanto estivesse a amamentar.

“As pessoas acreditavam que se ficassem grávidas o leite perdia qualidade para dar às crianças, paravam de amamentar e isso provocava má nutrição nessas crianças”, explicou a enfermeira Tchicau, adiantando que o curandeiro conseguiu aliar uma prática tradicional à forma correcta de fazer “e resultou bem”.

Numa altura em que o concelho do Porto Novo não tinha, sequer, um médico residente foi necessário aproveitar os recursos existentes para ir resolvendo, o melhor possível, os problemas e foi assim que surgiu a ideia e se implementou a experiência-piloto de formação de parteiras tradicionais.

“Nós transmitimos às parteiras tradicionais os conhecimentos básicos necessários para desempenharem essa actividade nas diferentes localidades” recorda a mesma fonte, explicando que lhes foram transmitidos conhecimentos em termos de anatomia do aparelho reprodutor masculino e feminino, conhecimentos de como tratar a mulher e a criança, entre outras matérias e a todas elas foi entregue um “kit” de equipamentos necessários e apropriados para a realização de um parto fora do hospital.

As dificuldades que a enfermeira Tchicau e a sua equipa tiveram de enfrentar não se esgotaram nos mitos, tabus e crendices populares, mas passaram também pela necessidade de deslocação numa ilha de localidades dispersas e sem infra-estruturas de acesso.

“Chegamos a deslocar-nos de bote, a fazer várias horas de caminho a pé e até já tive de me pendurar numa corda para poder chegar a uma localidade”, disse a enfermeira, explicando que teve de “fazer esse sacrifício durante a construção da estrada de Alto Mira para não perder umas vacinas” que de outro modo teriam ultrapassado a validade.

Já aposentada, a enfermeira Maria Francisca olha para trás com orgulho pelo trabalho desenvolvido e destaca a equipa que dirigiu, nessa altura, e que era “uma equipa empenhada, com vontade de trabalhar para melhorar e mudar a situação existente”.

“Esses problemas já foram ultrapassados, mas se eu voltasse atrás faria tudo de novo” garante Maria Francisca Santos Oliveira.

Mas hoje os tempos são outros, os desafios são outros, as bruxas já não “comem” crianças, a mortalidade materna e infantil (quase) desapareceu das estatísticas e as agruras passadas pela enfermeira Tchicau e a sua equipa são apenas velhas histórias, para os mais jovens e lembranças de tempos difíceis, para aqueles que ainda deles se recordam.

HF/ZS

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