REPORTAGEM: Vive em Txatxa o homem que inspirou a personagem André do romance “Os Dois Irmãos” de Germano Almeida

*** Por Luís Carvalho, da Agência de Notícias Inforpress ***

Cidade da Praia, 22 Jun (Inforpress) – Quatro décadas depois da tragédia que enlutou a pequena aldeia de Txatxa, no interior de S. Miguel, a Inforpress descobriu Domingos Lopes de Oliveira (foto), a personagem André que deu mote ao romance “Os Dois Irmãos”, de Germano Almeida.

A primeira edição de “Os Dois Irmãos” aconteceu em 1995 e, passados 23 anos, o livro de Germano Almeida, Prémio Camões-2018, deu origem ao filme do mesmo nome, de que nunca Domingos de Oliveira (Diminguinho, como é tratado na aldeia) e seus familiares ouviram falar. Custou 80 mil contos, tendo o Governo de Cabo Verde participado com 22 mil. A outra parte foi suportada pela cooperação portuguesa.

A rodagem do filme decorreu em Chã de Tanque, Rincão e Ribeira da Barca, interior do município de Santa Catarina (Santiago), e contou com a participação exclusiva de actores cabo-verdianos.

O filme conta a estória de André, um cabo-verdiano emigrante em Lisboa, que recebeu uma carta do pai a dizer-lhe que João, o seu irmão mais novo, se envolveu com a sua mulher. Na carta, era-lhe exigido que regressasse para limpar a desonra que tinha caído sobre a família. A pressão do pai e da própria aldeia vai constituir uma terrível força que o leva a matar o irmão, por quem tinha enorme amizade e ternura. André, personagem criada por Germano Almeida, tinha perto de 30 anos quando assassinou o irmão João que, na verdade se chamava Gualdino Semedo.

Para se chegar ao local onde Germano Almeida encontrou inspiração para o livro“Os Dois Irmãos” tem de ir-se de carro até Hortelã, onde, na escola local, decorreu o julgamento do caso Txatxa. Fica na Ribeira Principal, um dos mais importantes vales agrícolas do município de São Miguel. Daí, tem de seguir-se a pé, entre o chilrear dos pássaros e o barulho da água que ainda corre na ribeira. Txatxa de Cima é a aldeia que há cerca de 70 anos viu nascer Domingos Lopes de Oliveira.

Diminguinho, como é conhecido, é extrovertido e simpático e não hesita em convidar para entrar. De algum modo, é André, a personagem do livro e do filme “Os Dois Irmãos”, que está também ali e se dispõe a conversar.

Mas não é fácil comunicar com ele. Sofre de um problema auditivo profundo que, segundo o próprio, é a consequência das máquinas betoneiras com que trabalhou em Lisboa. A actual mulher, Teresa Semedo, com quem se casou há cinco anos em segundas núpcias, esteve presente durante a conversa, permitindo que a entrevista fosse possível.

Diminguinho parece ainda ser uma pessoa perturbada pelo que aconteceu consigo há 42 anos na pacata aldeia de Txatxa. Mesmo quatro décadas passadas, nota-se que evita falar do dia em que a desgraça lhe bateu à porta, quando matou o próprio irmão.

Instado a explicar por que razão não voltou a Lisboa, limita-se a afirmar que apanhou um choque, o que pode ser interpretado como o assassinato do irmão que lhe custou quatro anos de cadeia, segundo os familiares.

“Vim, sentei-me no meu lugar e não quis mais voltar” – é toda a explicação que dá.

Ilda Semedo, Requina como é conhecida na aldeia, diz que, quando se começou a falar de um eventual envolvimento do Gualdino com a mulher do Diminguinho, houve quem aconselhasse às pessoas a não falarem do assunto e outros entendiam que, mesmo que fosse verdade, “a coisa devia ser guardada em segredo, porque, caso contrário, o lume incendiaria a zona, assim como o sangue também poderia correr, o que acabou por acontecer”.

Requina, filha do irmão do pai do Diminguinho, recorda que a morte do primo Gualdino aconteceu na recta final de um baile de gira-discos em casa de um outro primo Ivo, em comemoração pela chegada deste, vindo de Lisboa, para visitar a família, depois de alguns anos de ausência.

“Este nosso primo Ivo foi o principal instigador do Diminguinho para assassinar o irmão”, enfatiza Requina.

“Segundo pessoas que estiveram naquele baile, a dado momento, o Ivo perguntou ao Diminguinho se era verdade o que se ouvia dizer na zona sobre o caso, ao que o nosso primo lhe respondeu que o Gualdino tinha negado. Mas, dizem que o Ivo voltou para o Diminguinho e disse-lhe: ‘já devias ter morto o Gualdino. Ele devia estar enterrado”, conta Requina, acrescentando que foi a partir desse momento que Diminguinho decidiu esfaquear o irmão mais novo que também fora emigrante em Portugal.

“Não estive no baile, mas lembro-me de ter visto o Gualdino a correr ladeira abaixo em direcção à casa dos pais deles a gritar, com a camisa ensopada de sangue, que o irmão o tinha dado com faca”, conta Requina, que diz ter pedido a Deus para nunca mais voltar a assistir a uma cena daquelas.

Conforme narra, Gualdino, além de jovem, “era muito forte” e conseguiu correr até à casa dos pais, onde atirou várias pedras contra o telhado.

“Foi então nesse momento que Diminguinho veio a correr lá de cima (cutelo onde se realizara o referido baile), foi buscar a caçadeira que o tio Vicente Semedo tinha guardado em cima do granel de milho e disparou-a fatalmente contra o Gualdino”, relata Requina, adiantando que, depois do acontecimento, o pai dos dois irmãos ficou “desorientado a correr para cima e para baixo, rogando pragas ao Diminguinho por ter morto o filho mais novo”.

Diz que guarda boas recordações do Gualdino a quem costumava lavar as roupas, uma vez que o seu primo “era solteiro e não tinha mulher”.

“Ele veio para a terra, ficou a armar-se em doido e nunca mais voltou para Portugal”, lamenta Requina.

O corpo do nosso primo, lembra, ficou mais de um dia estendido na ladeira, coberto com um lençol branco até que apareceram as autoridades para proceder ao levantamento do cadáver.

O Diminguinho, afiança Requina, que no dia anterior tinha sido detido pelo cabo-chefe Benjamim, voltou a Txatxa escoltado pelas autoridades policiais que o colocaram à frente do cadáver do irmão transportado numa “jangada” feita de madeira e folhas de sisal até à estrada.

Por sua vez, Francisca Semedo Pereira, uma outra parente, lamenta que nenhum familiar tenha assistido ao funeral do primo Gualdino realizado na cidade da Praia.

“Ele tinha muitas roupas que trouxera de Portugal, mas não serviram para o seu enterro”, queixa-se Francisca.

Cipriano Horta, um septuagenário residente em Hortelã, Ribeira Principal, conta como viveu o dia triste para Txatxa, ao ver, a partir da sua localidade, aquele vulto branco na ladeira, que era o corpo do Gualdino coberto com um lençol.

“Não é coisa que se pode provar”, argumenta aquele antigo emigrante em Portugal, numa referência à eventual traição cometida pela sua amiga de infância Carolina Pires Correia (Nha Bé), de Txatxa Baixo, hoje falecida, que é a personagem Maria Joana de “Os Dois Irmãos”.

“A minha mulher morreu há cinco anos e para não ficar a correr achadas, resolvi casar outra vez”, justifica Diminguinho, ressaltando que do primeiro casamento nasceram dois filhos.

Durante o tempo em que esteve preso na Cadeia Civil da Praia, hoje transformada em uma unidade hoteleira de quatro estrelas, a sua mulher visitou-o regularmente.

“Foi durante a prisão que nasceu a filha mais velha deles”, declarou Francisca à reportagem da Inforpress.

Diminguinho é actualmente reformado em Portugal, com uma pensão de pouco mais de 30 mil escudos, que, conforme nos revelou, é fruto dos três anos de emigração em terras lusas.

“Há vinte e tal anos que me reformei em Portugal”, diz por entre o orgulho de ter conseguido esta pensão da reforma.

Para ele, o montante que chega de Lisboa não é muito, mas permite-lhe “desenrascar com a vida”, uma vez que dispõe de algumas cabeças de animais e uma pequena horta de regadio.

Dos restantes protagonistas, apenas o Ivo (Pedro Miguel do romance), primo do Diminguinho, ainda está vivo em Portugal.

No dizer do sociólogo José Teixeira, as narrativas do livro “Os Dois Irmão” ilustram um caso concreto de como a sociedade pode influenciar um indivíduo a ponto de o levar a matar o irmão para “lavar a honra em nome dos costumes do local”.

LC/CP/SIC

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