REPORTAGEM: Agricultores dos vales encravados no Porto Novo sem condições para “exportar” excedentes dizem estar “a produzir para nada”

*** Por Jaime Medina, da Agência Inforpress ***

Porto Novo, 16 Mai (Inforpress) – Os agricultores dos vales agrícolas ainda encravados no interior do concelho do Porto Novo, na ilha de Santo Antão, dizem estar “a produzir para nada” devido às dificuldades no escoamento dos seus produtos até ao mercado.

Em situação mais complicada estão os produtores nos vales de Faial e Dominguinhas (Alto Mira), mas, também, de Chã de Branquinho, localidades de grande potencial agrícola, mas ainda isoladas do resto do concelho do Porto Novo.

“Na zona de Faial, estamos a produzir para nada. Temos muita produção, mas, como não tempos estrada, os produtos são transportados através dos animais (burros) e quando chegam ao mercado já não têm qualidade”, lamentou Elsa Fortes.

Segundo a agricultora, grande parte da produção de cenoura, repolho, batatas, tomates conseguida em Faial, onde residem cerca de 20 famílias, fica perdida, precisamente, por dificuldades de escoamento, já que “até chegar ao mercado, já não tem qualquer valor”.

António Duarte, outro agricultor em Faial, diz que “a estrada deixa muita falta” à comunidade, mas sobretudo aos lavadores que, a seu ver, têm sido “muito castigados” por causa do isolamento.

Segundo este produtor, chegar os excedentes ao “pé de estrada”, que vai até ao segundo povoado de Alto Mira (Chã Queimado), “não é tarefa fácil”, já que são transportados no lombo dos animas e quando chegam à cidade do Porto Novo, onde vão colocados, os produtos já não têm qualidade.

Trata-se de uma situação que prejudica muito os agricultores, segundo Gabriel Dias, outro agrário, que pediu ao Governo para desencravar todo o interior de Alto Mira, para que, além de Faial, os agricultores de Dominguinhas, outra zona agrícola encravada nesse vale, possam, também, proceder ao escoamento dos seus produtos em condições normais.

Os agricultores já, por inúmeras vezes, exortaram o Governo a desencravar essa zona, onde se produz bastante, e resolver o problema de escoamento dos excedentes, que está a condicionar a actividade agrícola local.

Elaurindo Baptista, representante dessa localidade, entende que a construção da estrada de acesso a Dominguinhas constitui “o maior sonho”, não só dos agricultores, mas das cerca de 30 famílias locais.

O presidente da Associação dos Agricultores em Alto Mira, Jailson Neves, partilha essa “grande preocupação” dos lavradores de Faial e Dominguinhas, considerando que o escoamento dos excedentes é um problema que continua a tirar o sono aos agricultores.

Para o edil Aníbal Fonseca, o desencravamento de todo o vale de Alto Mira, um dos mais produtivos da ilha de Santo Antão, é “um desígnio” do município do Porto Novo que, além de ser extenso é “ainda muito encravado”.

“Alto Mira, uma zona bastante produtiva, com enormes potencialidades a nível da agricultura e turismo, é um caso muito concreto. A estrada que ligará o segundo ao primeiro povoado é um grande problema que tem de ser resolvido, mas acreditamos que o Governo vai olhar, também, para esta localidade”, notou o autarca do Porto Novo.

A bacia hidrográfica de Alto Mira recebeu, em 2012, um investimento, na ordem dos 250 mil contos, no reordenamento dessa bacia, que possibilitou o incremento da actividade agrícola local, com a mobilização de água, mas que continua muito condicionada pelos contratempos em termos de escoamento.

Chã de Branquinho é outro vale agrícola encravado no interior do Porto Novo, cujos agricultores têm vindo a clamar pelo seu desencravamento, segundo a associação dos agricultores locais, que receia que a falta de estrada possa comprometer o futuro da agricultura nessa localidade.

Porém, no caso de Chã de Branquinho, o Governo já confirmou que essa localidade está entre os vales agrícolas em Santo Antão que vão ser desencravados até 2021.

“Chã de Branquinho é uma das estradas que está identificada para Porto Novo no quadro de um pacote para a ilha de Santo Antão”, assegurou, recentemente, a ministra das Infra-estruturas, Eunice Silva.

Igualmente, os produtores de Martiene e Chã de Norte têm vindo a queixar-se da falta de condições de transporte dos excedentes, devido às más condições das vias de acesso.

Santo Antão será contemplado, a partir deste ano, e durante os próximos quatro anos, com a construção de oito estradas de penetração, no quadro de um programa de desencravamento das localidades nesta ilha, já anunciado pelo Governo.

O programa, que começa a ser implementado, já a partir de Junho, com o arranque da segunda fase da estrada para Tarrafal de Monte Trigo, abarca ainda as vias de acesso à Lagoa do Planalto Leste, Figueiral (Paul), Caíbros e Chã de Igreja (Ribeira Grande) e Chã de Branquinho e Chã de Norte (Porto Novo).

O Governo, no quadro do programa de recuperação da ilha de Santo Anão, esta a construir uma ponte em Ribeira de Chã de Norte para melhorar a acessibilidade à essa zona, também agrícola.

Além do isolamento, os agricultores enfrentam ainda um outro constrangimento: o embargo que, desde 1984, é imposto aos produtos agrícolas de Santo Antão, por causa da praga dos mil-pés (de nome científico illacme plenipes), o que, também, dificulta o acesso ao mercado.

JM/CP

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