Remoção da estátua do Anjo S. Gabriel: Cardeal considera que “não foi a melhor” a metodologia utilizada (c/áudio)

Cidade da Praia, 28 Ago (Inforpress) – O cardeal D. Arlindo Furtado considera que “não foi a melhor” a metodologia utilizada na remoção da estátua do Anjo S. Gabriel colocada por um escultor na localidade de Rezadouro, Ribeira Brava, e que “devia haver uma concertação”.

“Tratando-se de um assunto delicado, qualquer pessoa que tenha responsabilidade devia entrar, antes demais, em contacto com os protagonistas, que seriam o escultor e as autoridades eclesiásticas,  para depois decidir sobre que medida a tomar, no âmbito  de uma concertação”, precisou o bispo de Santiago que preferiu falar à Inforpress na “qualidade de cidadão, cristão e, também, pastor da Igreja Católica em Cabo Verde”, porque, segundo ele, o acontecimento se registou na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, no município da Ribeira Brava, S. Nicolau, que pertence à Diocese do Mindelo.

Para D. Arlindo Furtado, “não se justifica de forma alguma a intervenção que se fez em relação à estátua que ficou muito danificada”.

“Não cola bem esta desculpa de ter tirado a estátua para depois mandar recolhê-la no dia seguinte”, lamentou o prelado, acrescentando que “isto é inaceitável”.

Na opinião do cardeal, a estátua não deveria ter sido colocada naquele espaço sem uma concertação, seja com as autoridades eclesiásticas, seja com os civis, neste caso, o presidente da câmara municipal.

“Mas, um erro não justifica o outro”, realça Dom Arlindo Furtado para demonstrar o seu desagrado sobre a medida adoptada pelo edil da Ribeira Brava, Pedro Morais, que alega que a referida estátua do Anjo S. Gabriel foi colocada no local sem a autorização da edilidade.

Os cabo-verdianos, em particular os são-nicolauenses têm manifestado o seu descontentamento pela forma como o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Brava mandou remover a referida estátua.

Instado a comentar esta onda de indignação, Arlindo Furtado acha que as pessoas têm razão.

“É inconcebível uma pessoa com responsabilidade (presidente de uma câmara municipal) agir dessa maneira… e com assunto dessa natureza”, afirmou, para depois concluir que não é assim que se lidam com as coisas, mesmo quando tenha havido previamente um outro erro.

“Se as coisas se resolverem desse jeito, então onde é que vamos parar”, pergunta o cardeal.

Por sua vez, o membro da Comissão de Justiça e Paz da Diocese da Santiago, Jacinto Santos, enquanto cidadão e cristão, entende que o que aconteceu em S. Nicolau é “uma afronta aos católicos e um desrespeito à liberdade do culto protegida pela Constituição da República”.

Na sua perspectiva, está-se perante uma “desconsideração pela matriz judaico-cristã dos cabo-verdianos”.

“O Estado é laico, mas o povo não é laico e até a laicidade em Cabo Verde tem que ser devidamente relativizada”, indicou Jacinto Santos, porque, diz ele, a Igreja Católica está na origem da construção da história e cultura dos cabo-verdianos.

Referindo-se ainda ao caso da Ribeira Brava, Jacinto Santos lembra que na Cidade da Praia, num dos bairros espontâneos que o povo baptizou de S. Paulo, a população ergueu uma estátua em homenagem ao santo padroeiro da localidade e nunca a Câmara da Praia “ousou em mandar demoli-la”.

A Inforpress tentou contactar com o bispo da Diocese do Mindelo, D. Ildo Fortes, mas tal não foi possível porque este está fora do país. Também foram infrutíferas as tentativas de entrar em contacto com o vigário geral, o padre Paulo, e o pároco da Nossa Senhora do Rosário, o padre Eliseu, que se encontra em Santo Santão.

LC/CP

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