Mosteiros: Fogo foi a última ilha onde se introduziu o café mas foi ali que se entranhou melhor – José Maria Semedo

São Filipe, 13 Abr (Inforpress) – A ilha do Fogo foi a última ilha onde se introduziu o café, já na segunda metade do seculo XIX, mas foi onde se entranhou na cultura da sua gente e se desenvolveu devido às condições ecológicas.

A constatação é do geografo e professor da Universidade de Cabo Verde José Maria Semedo, que sexta-feira discorreu sobre a “historia da cafeicultura em Cabo Verde”, no âmbito da conferência sobre o tema “cultura do café e o seu valor económico na actualidade”, realizada no primeiro dia do sexto Festival do Café do Fogo, o “Fogo coffee fest”.

Segundo o professor, o café é uma planta que começou a ser usada em larga escala a partir do seculo XVIII, mas que no seculo VII começou a ser difundido fora do planalto de Abissínia (Etiópia), através de expansão islâmica, primeiro, que o levou para Arábia, e depois para a Europa, observando que o café era uma bebida dos muçulmanos.

Com a expansão europeia, os holandeses, através da companhia das Índias, levaram o café para Java, depois para América (Caraíbas, Suriname e Brasil), relembrou o investigador, observando que só por volta de 1790 é que o café é introduzido em Cabo Verde, primeiro através das ilhas de S. Nicolau, seguido de Santiago e Santo Antão, chegando ao Fogo só na segunda metade do seculo XIX.

“Por ironia, a última ilha que o café chega é a ilha do Fogo e entranha-se na cultura das pessoas e se desenvolveu, dadas às condições ecológicas mais favoráveis”, refere o professor, observando que a espécie de “coffee arábica” requer terras altas, frescas e não muita chuva.

No dizer de José Maria Semedo, documentos datados de 1844, de Joaquim Lopes de Lima, salientavam que o café de Cabo Verde era de muito boa qualidade, e nessa altura ainda não havia café na ilha do Fogo, somente nas ilhas de S.Nicolau, Santiago e Santo Antão, isto não obstante a técnica utilizada na produção era de baixa qualidade, a população não tinha aderido à ideia de produção em grande quantidade, mas apenas para o consumo local e para exportar para Europa, em quantidade tímida.

Na segunda metade do seculo XIX, introduziu-se o café na ilha do Fogo e em 195, Orlando Robeiro, referia, segundo José Maria Semedo, à produção do café na ilha do Fogo, mas que as plantas estavam velhas e que havia pelo menos duas gerações que não deram continuidade às plantações.

Para este professor, o café era para grandes proprietários, morgadios e classe que aguentava um ou dois anos de seca, já que a classe mais pobre não tinha margem de manobra para cultivo do café, adiantando que “ter terreno de café era para pessoas com grandes posses, quer no Fogo quer em Santiago”.

Devido às várias secas de seculo XX, houve decadência no cultivo do café, mas agora as novas gerações querem apostar no café, não na perspectiva do seculo XVIII, mas numa perspectiva diferente.

“O café é de facto um produto tradicional, não é para venda, porque em Cabo Verde há a tradição do consumo de café”, afirma o professor universitário, indicando que há dois casos de países produtores que tornaram consumidores, Brasil e Cabo Verde, enquanto outros países, como Angola e São Tomé e Príncipe, o café é produzido para venda no exterior, porque as pessoas não consideram-no um produto para o próprio consumo.

A sexta edição do festival de café continua esta semana com uma série de actividades, donde se destaca a realização da segunda edição da “corrida do café” no percurso Pai António, Cutelo Alto (zonas altas), n com meta de chegada na cidade de Igreja.

JR/JMV

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