Família da malograda Nha Xandade “sem forças” para continuar o tradicional almoço de Cinzas

Cidade da Praia, 01 Mar (Inforpress) – A filha de Nha Xandade Djola afirma não ter forças suficientes para continuar, este ano, o tradicional almoço de Cinzas, uma vez que, “a morte da mãe é recente” e a família está “enlutada com muita mágoa e dor”.

A declaração foi feita à Inforpress por Djola de Xandade, a filha mais velha da idónea do bairro de Achada Santo António (ASA), na Cidade da Praia, Nha Xandade, falecida há três meses, aos 90 anos, e que nas últimas décadas vinha oferecendo comida no dia de Cinzas aos doentes do hospital Agostinho Neto e da Trindade, aos presos e àqueles que os visitam anualmente na quarta-feira a seguir ao Carnaval.

A mãe, conta Djola de Xandade, achou por bem partilhar com os mais necessitados o dinheiro que o seu pai lhe tinha enviado dos Estados Unidos da América nos anos idos, avisando-lhe de antemão para partilhar com os outros que necessitam.

Lembrou que, na época, a sua mãe pensou logo nos presos, tendo em conta que a cadeia civil na época ficava na zona da Prainha, portanto, bem perto da sua casa em Achada Santo António. Assim, começou a distribuir o tradicional almoço de Cinzas a estes presos durante muitos anos, passando a fazer esse gesto também com os doentes do Hospital da Trindade, recebendo com a mesma alegria as pessoas que visitam a sua casa no dia de Cinzas.

“Sou a filha mais velha e tinha o dever de tomar essa iniciativa, mas no momento estou sem forças por causa da perda da minha mãe e a mágoa está cada vez mais a tomar conta da nossa família”, revelou.

Djola de Xandade explicou que a tradição perdura há mais de 50 anos, pois, desde que ela era criança, lembra-se que nestas alturas a sua mãe já estava com os preparativos em dia para a festa de Cinzas, mas este ano, “lamenta o silêncio à volta deste certame”.

“Há uma tristeza no rosto de todos nós. Ela me pediu em especial para no dia em que falecer, continuar com as festividades de Cinzas, pois, sempre juntou o seu dinheiro com a ajuda dos seus filhos para promover todos os anos o almoço para as pessoas que visitam a nossa casa nesse dia”, lembrou.

Entretanto, Djola de Xandade diz que a coragem lhe falta para prosseguir com a vontade da sua mãe, mas promete que, para o ano que vem, irá juntar aos netos para realizar aquilo que é a maior vontade de Nha Xandade, em ver a sua tradição “erguida sempre”, na partilha com os outros que necessitam.

No dia de Cinzas, segundo os religiosos, a igreja recomenda não só a abstinência de carne como também jejum. Mas em Cabo Verde, sobretudo na ilha de Santiago, muitas pessoas esquecem e deixam-se levar pela tradição cultural.

No almoço de Cinzas predomina um prato à base de xerém, coco, feijão, em forma de ‘trutxida’, peixe seco, cozido, cuscuz com mel, entre outras.

A “fartura” de pratos tradicionais acontece nas residências, mas também nos restaurantes da ilha. Na Cidade da Praia, a própria Câmara Municipal promove um grande almoço de Cinzas no centro da cidade onde além dos pratos típicos, haverá actividades culturais e recreativas.

AF/ZS

Inforpress/Fim