Estudioso da língua cabo-verdiana defende paridade entre crioulo e português

Cidade da Praia, 21 Fev (Inforpress) – O estudioso da língua cabo-verdiana, Marciano Moreira defendeu hoje, na Cidade da Praia, a paridade entre a língua crioula e portuguesa em Cabo Verde, afirmando que cabe aos deputados declarar constitucionalmente esse direito.

A ideia foi defendida em declarações à imprensa à margem de uma roda de conversas sobre a importância da língua materna, com os alunos da escola Lavadouro, realizada no âmbito das comemorações alusivas ao Dia Internacional da Língua Materna, hoje assinalado, em parceria com o Museu de Educação e que teve como principal orador, Marciano Moreira.

“Neste momento, falta que os deputados nacionais, em sede de revisão constitucional, declararem paridade entre a língua crioula e portuguesa”, defendeu, lembrando que o nº3 do artigo 9º da Constituição, diz que “todo o cidadão tem o dever de conhecer as línguas oficiais e o direito de usá-las”.

Por esta razão e porque ainda há cidadãos que por “alienação ou bairrismo, desprezam a língua crioula, a marca principal da identidade nacional”, Marciano Moreira considerou que cabe ao Estado ensinar aos cidadãos essas línguas para poderem conhecer, de forma científica, as duas línguas, acrescentando que se o Ministério “não está a fazer isso que estão a violar a Constituição”.

Tendo em conta essa realidade, a coordenadora substituta da escola do Lavadouro, Analina Rocha, explicou que lhe ocorreu que seria importante levar para a escola uma pessoa que estuda a língua cabo-verdiana para falar com os alunos sobre a importância da língua materna, sem esquecer que o tema deste ano para o Dia Internacional da Língua Materna é “Diversidade linguística e multilinguismo contam para o desenvolvimento sustentável”.

“A primeira língua com a qual as crianças têm contacto é o crioulo, mas elas não sabem escrever nem ler em crioulo, por isso, devem ter a noção do motivo que o crioulo é a nossa língua materna e também para poderem consciencializar-se sobre o assunto, porque queremos que seja uma língua oficializada”, defendeu.

A mesma opinião é partilhada pela coordenadora das actividades do Museu de Educação, Dulcelina Tavares, indicando que a roda de conversa tem como objectivo falar e sensibilizar as crianças sobre a importância da língua materna para a aprendizagem de outras línguas e a questão da diversidade cultura.

“As crianças que estão habituadas a falar o crioulo no seu dia-a-dia, têm dificuldades, por exemplo, de falar português. Para além dos alunos, prevemos também realizar actividades com professores sobre a língua materna”, precisou Dulcelina, frisando que falta mais incentivo para a valorização da língua cabo-verdiana na escola.

O Dia Internacional da Língua Materna, proclamado pela UNESCO em 1999 e celebrado, anualmente, a 21 de Fevereiro, tem como objectivo a protecção e a salvaguarda das línguas faladas pelos povos em todo o planeta, estimando-se que existam mais de 7.000 línguas em todo o globo, sendo que metade destas corre o risco de vir a desaparecer.

A escolha do dia 21 de Fevereiro para comemorar o Dia Internacional da Língua Materna serve para lembrar a população mundial da tragédia que ocorreu em Fevereiro de 1952, na cidade de Daca, no Bangladesh, em que vários estudantes foram mortos pela polícia enquanto protestavam pelo reconhecimento da sua língua – o bengalês – como um dos dois idiomas oficiais do então Paquistão.

O tema do Dia Internacional da Língua Materna em 2017 foi “Rumo a futuros sustentáveis através da educação multilingue”, e em 2016 foi “Educação de qualidade, linguagem (ns) de instrução e resultados de aprendizagem”.

DR/FP

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