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Especialistas alertam que alimentos regados com água de esgoto sem tratamento podem causar intoxicação alimentar

Cidade da Praia, 30 Ago (Inforpress) –  A presidente da Associação Cabo-verdiana de Nutricionistas (ACNUT), Alzerina Monteiro, e o especialista em Avaliação de Risco, Edson Santos, alertam que consumir alimentos provenientes de hortas regadas com água de esgoto pode causar intoxicação alimentar.

Estas reações surgem na sequência de uma entrevista concedida à Inforpress pela delegada de Saúde da Praia, a 10 de Agosto, onde denunciou a existência de hortas irrigadas com água de esgoto em zonas circundantes à Cidade da Praia.

Segundo a presidente da Associação Cabo-verdiana de Nutricionistas, um dos riscos é o contágio pela bactéria Escherichia coli que é transmitida através da água contaminada com fezes e que pode causar às pessoas “muitos problemas de saúde” inclusive uma intoxicação alimentar.

“Os sintomas mais comuns são diarreia, além disso causa náuseas, vómitos, dor abdominal, algumas cólicas e febre. Mas dependendo da bactéria pode ter casos graves de intoxicação que pode levar uma pessoa à paralisação de alguns membros”, explicou Alzerina Monteiro.

Segundo essa especialista, normalmente uma intoxicação pode aparecer rápido dentro de algumas horas, depois de ingestão de alimentos, mas em outros casos pode demorar dias ou até mesmo semanas. E isso causa dificuldade às pessoas em associar os sintomas à ingestão do alimento contaminado e muitas vezes há casos em que apesar de terem essa origem, não são diagnosticados como intoxicação.

“É totalmente desaconselhável usar produtos provenientes dessas hortas porque a intoxicação alimentar muitas vezes causa alguns sintomas que normalmente, por desconhecimento, as pessoas não relacionam ao consumo dos alimentos que foram contaminados”, afirmou a nutricionista que pediu aos agricultores para não utilizarem água de esgoto na rega e às vendedeiras a não fazerem lavagem de alimentos ou borrifar alimentos no mercado com produtos contaminados e com água não tratada.

Isto porque, defendeu, infelizmente em Cabo Verde as pessoas ainda não fazem a higienização correcta dos alimentos e a possibilidade de contágio é sempre alta.

O Especialista em Avaliação de Risco, Edson Santos, lembrou que conforme o Guia da OMS “the Guidelines for the Safe Use of Wastewater, Excreta and Greywater in Agriculture and Aquaculture”, existem diversos riscos associados à rega com esgoto e que devem ser controlados, de forma a equilibrarmos a necessidade de haver alimentos e a necessidade de os alimentos serem sanitariamente seguros.

Destacou como exemplo riscos de contaminantes químicos, oriundos de fontes domésticos, ou de fontes industriais e turísticas e perigos biológicos diversas como altas cargas bacterianas, vírus, parasitas e formas infestantes de parasitas (ovos de parasitas gastrointestinais).

“O risco biológico é maior por exemplo quando os produtos vegetais são adquiridos e consumidos sem um tratamento apropriado (Exemplo: cozimento, lavagem). No caso de famílias em comunidades carenciadas o risco de desenvolvimento de doenças é maior devido ao não acesso a água potável”, sustentou.

No entanto, segundo Edson Santos, esta prática não é de todo proibida, pelo contrário ela é recomendada mundialmente, principalmente em países onde o acesso à água é problemático.

“Contudo há que haver estratégias que permitam minimizar e controlar os riscos que daí advêm, estratégias estas que devem ser definidas pelo Governo em parceria com os diferentes intervenientes da cadeia alimentar”, defendeu o especialista para quem uma medida importante é o tratamento de águas residuais, permitindo assim minimizar os riscos ou ainda optar por boas práticas de irrigação, onde o uso de água não residual deve ser uma prioridade.

Instado a falar sobre este caso o vereador de Ambiente da Câmara Municipal da Praia, António Lopes da Silva, garantiu que a CMP está a organizar para desmantelar “brevemente” as horas existentes na capital regadas com água de esgoto.

“Não é só uma questão da câmara, é uma questão da Delegacia de Saúde e de outras instituições. Acho que tem que ter uma maior articulação. Mas, a câmara já tomou a sua posição clara e vai acabar com essas hortas”, prometeu o autarca.

CD/FP

Inforpress/Fim