As piores fases da nossa diáspora na Itália terão sido sanadas – embaixador Manuel Amante da Rosa

Roma, 21 Ago (Inforpress) – O embaixador Manuel Amante da Rosa, cuja missão de serviço na Itália foi dada por finda na semana passada, disse hoje à Inforpress que as “piores” fases da diáspora cabo-verdiana naquele país europeu “terão sido sanadas”.

Colocado em Itália desde 2013, Manuel Amante da Rosa que ainda se encontra em Roma, disse à Inforpress ao ser contactado via internet, que se confrontou por vezes com “situações muito lamentáveis” e “emocionais” perante mães chefes de família, com os filhos e elas próprias sem documentação para poderem renovar a autorização de residência e matricularem os filhos ou receberem abonos devidos.

De acordo com o diplomata, foram questões que levaram anos a serem resolvidas até se entrar agora na fase da normalização graças à “pertinente” decisão do Governo.

Entretanto, reconheceu que “a Itália tem leis rigorosas para os estrangeiros residentes”, mas mesmo assim disse acreditar que muitas das “situações graves” terão sido resolvidas com a “benevolência” por parte das autoridades italianas face ao bom nome de que goza a comunidade cabo-verdiana nas grandes cidades italianas.

“Gostaria que se tivesse concretizado um terceiro ponto a que muito me propus no sentido de as associações se organizarem para constituírem uma federação, o que em muito facilitaria o diálogo, os contactos e melhor serviria na sua defesa colectiva, especialmente na integração e inclusão da segunda geração que por ora atravessa momentos menos bons”, realçou Manuel Amante da Rosa.

Contudo, o diplomata “diz-se convicto” de que durante o período que esteve destacado na Itália, Cabo Verde conseguiu aprofundar muito o seu diálogo no sentido de conseguir que os investimentos italianos no arquipélago “aumentassem significativamente”.

“O País da África Ocidental onde mais se faz sentir o soft power (influência) itálico é precisamente em Cabo Verde. Quero crer que a maior comunidade europeia expatriada em Cabo Verde é actualmente a italiana. Este facto é de fácil verificação, e gostava muito de ver aumentadas todas estas contestações”, sublinhou.

Além de embaixador em Roma, Amante da Rosa era ainda representante de Cabo Verde junto da República de Malta e da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

A propósito do seu exercício junto da República de Malta, Amante da Rosa avançou à Inforpress que se trata de um País com o qual Cabo Verde “terá muito que aprender em termos da Economia Azul, no sector financeiro, na educação e no Turismo”.

“Alguns dos dirigentes com quem mantivemos contactos e que conhecem Cabo Verde, estão prontos a iniciar uma frutuosa cooperação e regular o diálogo com o nosso País. Aguardemos, no entanto, para que haja novos desenvolvimentos futuros neste relacionamento”, frisou.

No concernente à FAO, Manuel Amante da Rosa afirmou que Cabo Verde foi nos últimos anos “um membro activo e participativo” naquela organização, dando a sua colaboração em diferentes temas.

“Culmino felizmente o meu mandato, e em boa hora, com a primeira visita oficial do director geral da FAO a Cabo Verde”, enfatizou, sublinhando que lhe fica difícil de se “vangloriar” dos ganhos alcançados, agora que deixa o posto, correndo o risco de “ser considerado arrogante”, pelo que “deixo aos meus superiores essa contabilização”, concluiu.

Nesta entrevista à Inforpress, o diplomata falou também um pouco sobre o seu futuro admitindo a possibilidade de vir a se dedicar à vida política agora que não possui “amarras da diplomacia”.

“Abstive-me de muitas opções, de muitos comportamentos, deixei de optar por outros ramos de vida, apesar de algumas vezes convidado, tive, como muitos outros diplomatas por este mundo fora, uma vida familiar instável e deixei de escrever, de estudar e ou acompanhar muitas matérias na área cultural ou da geoestratégia e da segurança e defesa”, afirmou.

Agora, numa nova fase, diz que talvez irá se dedicar à vida política, um desejo que, segundo disse “há algum tempo lhe persegue” (…) Quem sabe?”, completou.

Para já, numa apreciação global da sua carreira como diplomata, Manuel Amante da Rosa diz que carrega um “sentimento de dever cumprido”.

“Motivaram-me sempre, desde o início, a plena dedicação, inteira disponibilidade, aperfeiçoamento e o acompanhamento permanente dos grandes temas internacionais que pudessem afectar Cabo Verde”, ajuntou, realçando que teve sempre a noção de que para se ser bem-sucedido na carreira diplomática deveria, primeiramente, identificar-se com os anseios do País que lhe dava o “privilégio” e a “pesada responsabilidade” de poder falar em seu nome.

“Ao longo da carreira trabalhei com diversas comunidades em diversos países. Comecei, no Ministério, pelo Departamento de Emigração e lembro-me que o primeiro Acordo de Segurança Social em que participei nas discussões foi com a Itália. Era também o primeiro que a Itália assinava com um outro país para proteger cidadãos emigrantes no seu país. Sem dúvida, um marco histórico”, informou.

Um decreto presidencial publicado no Boletim Oficial de segunda-feira, 13, dá por finda a comissão de serviço de Manuel Amante da Rosa no cargo de embaixador de Cabo Verde junto da República da Itália.

GSF/FP

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