AI denuncia repressão contra a oposição nas vésperas das presidenciais na Rússia

 

Lisboa, 15 Mar (Inforpress) – As autoridades russas violam sistematicamente os direitos de activistas políticos, com detenções arbitrárias e aumento da repressão, quando se aproximam as eleições presidenciais de domingo, alerta hoje a Amnistia Internacional (AI).

Em comunicado, a organização não-governamental assinala que as autoridades visam deliberadamente os activistas que apelam ao boicote eleitoral, recorrendo a uma “draconiana lei sobre reuniões públicas”.

Para além de restringir as concentrações públicas, a repressão implicou a detenção arbitrária de “proeminentes vozes da oposição”, acusadas de ofensas politicamente motivadas.

“A agenda do Kremlin é clara – as acções de protesto e os apelos ao boicote devem ser eliminados das ruas das cidades durante a fase final da campanha eleitoral”, considera Denis Krivosheev, vice-director da AI para a Europa de Leste e Ásia Central.

“Ao utilizarem diversos métodos, as autoridades geralmente optam pela decisão preferida: colocar arbitrariamente sob prisão os dissidentes”.

O apelo ao boicote das eleições presidenciais de domingo tem sido liderado por Aleksei Navalny, activista político e líder de uma campanha anti-corrupção, proibido de apresentar a sua candidatura com base em argumentos muito contestados.

Nas últimas semanas, as autoridades reprimiram os seus apoiantes através de um conjunto de acções punitivas, incluindo detenções arbitrárias, assinala a AI.

Leonid Volkov, o responsável pela campanha de Navalny e detido em 22 de Fevereiro no aeroporto de Moscovo quando se dirigia para a cidade de Ufa, foi condenado a 30 dias de prisão administrativa por alegadamente organizar uma “manifestação não autorizada”.

A acusação relaciona-se como a concentração da “greve dos eleitores”, que decorreu em 28 de Janeiro em cerca de 100 cidades da Rússia em apoio ao apelo de Navalny para um boicote ao escrutínio presidencial.

As autoridades de Moscovo recusaram o pedido de Navalny para uma concentração no centro da cidade e detiveram-no brevemente com algumas dezenas de apoiantes, sendo depois libertado.

O coordenador da sede de Navalny em São Petersburgo, Denis Mikhailov, foi ainda detido em 31 de Janeiro por 30 dias após a organização na cidade da “greve dos eleitores”, também proibida pelas autoridades. Acabou por ser condenado a 25 dias na prisão por ter apelado a “manifestação não autorizada”.

“Denis Mikhailov não foi apenas arbitrariamente privado da sua liberdade, mas privado por duas vezes. Esta repetida violação exemplifica a crescente situação de hostilidade enfrentada pelos manifestantes pacíficos com a aproximação da eleição”, assinala Denis Krivosheev.

Pelo menos dois proeminentes activistas foram detidos em São Petersburgo em circunstâncias similares, prossegue o comunicado da AI.

O coordenador de São Petersburgo do movimento “Rússia Aberta”, Andrei Pivovarov, foi sentenciado a 25 dias de detenção administrativa em 28 de Fevereiro. Uns dias antes da sua prisão, escreveu no ‘Facebook’ que sentia estar sob vigilância.

“Esta campanha eleitoral tem sido assinalada por ataques generalizados contra os críticos do Presidente Putin, e as represálias destinadas a intimidar e reduzir ao silêncio os activistas da oposição intensificaram-se à medida que se aproxima o dia da votação”, indica Denis Krivosheev.

“Todos os manifestantes e activistas políticos detidos apenas por exercerem pacificamente os seus direitos de reunião e expressão devem ser imediata e incondicionalmente libertados”.

Numa extensa declaração pública publicada em simultâneo e intitulada “Russian Federation: The right to freedom of peaceful assembly – freedom in all but name”, a organização de direitos humanos demonstra com particular detalhe a forma como as restrições às reuniões públicas, o uso abusivo da força pela polícia, as prisões arbitrárias, os julgamentos injustos, as pesadas multas e a dilatada “detenção administrativa” colidem com os direitos à liberdade de expressão e reunião na Rússia, em regressão desde 2012.

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